Há tempos, venho pensando sobre “mérito”. Superficialmente, quanto dos meus resultados, positivos e negativos, se devem exclusivamente a mim? Descartando toda a sorte do acaso evidente, quanto ainda resta?

Embora não tenha nascido em berço de ouro, é fato que minha “linha de partida” não foi a mesma que para todos os outros. Alguns largaram na frente. Muitos, bem atrás.

Para muitos daqueles que “largaram ao meu lado” faltaram características inatas que possuo. Outros, com atributos que não tenho, conseguiram “acelerar mais” e abriram vantagem.

Mesmo quando ignoro as disparidades competitivas, ainda há o fato inegável de que vivo em uma sociedade que valoriza o que faço bem. Em um ambiente onde a força física fosse mais valiosa do que minha nem tão desenvolvida capacidade de “pensar diferente”, por exemplo, eu, seguramente, teria bem mais com o que me preocupar.

De forma alguma, excluo a importância do meu esforço como ingrediente básico dos meus sucessos e fracassos. Entretanto, cada vez mais, percebo que este esforço, mesmo fundamental, tem menos relevância do que, há bem pouco tempo, pensava.

No line-up de palestrantes de qualquer evento a maioria ainda é absolutamente formada por homens brancos e héteros, embora eu conheça um número enorme de gente de grupos sub-representados muito competente. Assumindo que homens sejam apenas 50% da população há algo muito errado, não?

Até outro dia, menos de 5% da população acadêmica era negra. Tudo isso em um país onde maioria sabidamente não é branca – embora, quase 50% se auto proclamem dessa forma. Algo errado também, certo?

Nasci homem, branco e hétero em uma sociedade que tem dificuldades inegáveis para lidar com mulheres, negros e LGBT+. O preconceito estrutural existe, já o presenciei inúmeras vezes. Aliás, parece que a coisa é agravada quando, além de tudo isso, também se é pobre. Outro dia, em “Alphaville” aconteceu algo patético: um homem branco, com renda auto declarada de mais de 300 mil reais (atenção Receita!), ofendendo a força policial no melhor estilo “quebrada!” (Aqui é Alphaville, porra!). Como seria caso a “quebrada” não fosse encenação, mas uma realidade?

Quando assisto na TV, no conforto da minha casa, um homem negro sendo morto com, literalmente, um joelho no pescoço enquanto implora pelo direito natural de respirar, percebo algo que me assusta: a monstruosidade humana está tentando transformar até mesmo o simples ato de respirar em um privilégio – afinal, pela violência injustificada e desproporcional, é maldosamente seletiva.

Algo não tão diferente do que aconteceu nos EUA, frente as câmeras, seguramente acontece todo dia em algumas vizinhanças. Entretanto, parece que já estamos “anestesiados” ou simplesmente somos menos empáticos quando o idioma não é estrangeiro.

Ao Estado é conferido o monopólio do uso legítimo da força. Entretanto, o Estado, mesmo na auto proclamada pátria da liberdade, insiste em fazer isso mal. Infelizmente, por aqui, não é diferente.

Há tempos venho pensando sobre “mérito” e acabo percebendo que, para isso, não posso ignorar a justiça. Muito pouco para tentar justificar ou definir o meu, mas para entender por que ele é negado a tantos.

Este post tem um comentário

  1. Vinicius Rocha

    Triste realidade!

Deixe uma resposta