O passatempo da minha adolescência era jogar Xadrez. Simplesmente amava o jogo. Em algumas partidas, fui brilhante. No geral, fui medíocre.

Era um jogador relativamente forte, mas, sendo realista, na maioria dos torneios, nos emparelhamentos iniciais, considerando o rating que é uma espécie de pontuação mantida por alguma federação para designar força, geralmente estava no meio da tabela.

Por minha “força relativa”, nos campeonatos em que participei, de acordo com o sistema de emparceiramento vigente na época, na primeira partida jogava contra um adversário bem mais forte – do topo da lista – ou contra um jogador bem mais fraco – da parte de baixo da tabela. De qualquer forma, me dedicava tanto no primeiro jogo que, geralmente, obtinha um bom resultado – geralmente vitória contra jogadores muito mais fracos e pelo menos um empate contra jogadores muito mais fortes. Ou seja, em torneios, tinha êxito na primeira partida.

O “problema” costumava ser a segunda ou a terceira rodada. Algumas vezes, tinha sucesso no segundo jogo, mas, quando isso acontecia, fatalmente fracassava no terceiro.

O fato é que me faltou, por anos, preparo psicológico para superar o sucesso do primeiro jogo e começava “relaxado demais” nos próximos embates. O sucesso da primeira partida se convertia em frustração rapidamente – não raro contra jogadores com jogo notoriamente mais precário que o meu.

A dinâmica do fracasso, para mim, era algo previsível. Primeiro, deixava de acumular pequenos acertos ou cometia pequenos erros, já na condução da abertura. Depois, era excessivamente profilático (mexendo as peças, mas fazendo nada) no início do meio jogo. Na sequência, começava a ver o adversário acumular pequenas vantagens, geralmente reversíveis, sistematicamente. Finalmente, entendia que estava completamente perdido e jogava, com desespero crescente, vendo o adversário “não errar” até ter que, sem muitos recursos, respeitosamente reconhecer a derrota, completamente esgotado.

Xadrez não é um jogo fisicamente violento. Entretanto, psicologicamente, é muito difícil lidar com o reconhecimento de se estar irreversivelmente derrotado por um adversário, em teoria, mais fraco. Infelizmente, esse quase sempre era o caso nas segundas ou terceiras partidas que jogava nos torneios.

Sucesso na primeira rodada, fracasso na segunda ou na terceira. Depois disso, geralmente minhas chances de vencer os torneios ficavam comprometidas.

O sucesso precoce me fazia entrar “de salto alto” mais tarde. Perdi, muito tempo, para mim mesmo. No Xadrez e na vida, competência consistente, não arrombos de brilhantismo, vencem no longo prazo.

Geralmente, só morre afogado quem sabe nadar.

Não jogo mais Xadrez. Pelo menos, não que eu perceba!

Este post tem um comentário

  1. Vinicius Rocha

    Infelizmente, acho que isso é mais comum do que a gente imagina.

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