Ligo a TV e assisto algum político falando besteiras. Acesso o Instagram e vejo a foto de um casal de amigos, no hospital, com o filho recém nascido.

Acordo nas segundas-feiras e lamento por não estar embarcando para algum lugar, como fazia, sempre, todas as semanas. Pouco depois, recebo abraços e beijos do meu filho Otávio que acorda e fica feliz de me encontrar em casa.

Sinto saudades do meu filho Gabriel. Ele mora longe e os encontros estão mais difíceis. Por outro lado, estranhamente, estamos conversando com muito mais frequência agora.

As reuniões presenciais estão suspensas, mas, as remotas acontecem durante o dia todo.

Estão suspensas, também, as conversas de corredor e os cafezinhos com clientes e amigos. Entretanto, tenho tido o privilégio de continuar achando formas de darmos, juntos, boas risadas.

As redes sociais multiplicam desinformação e me deixam com medo. Por outro lado, todos os dias, encontro lives e shows que tornam meus dias mais leves.

O medo da crise financeira é real. As vezes, perco o sono ponderando sobre o que fazer caso as coisas piorem. Entretanto, a cada dia fica mais claro, para mim, que coisas muito boas, como beijos, abraços, risadas e conversas vão continuar sendo de graça.

Restaurantes, simples e sofisticados, estão fechados. Mesmo assim, desde que se intensificaram as medidas de isolamento e distanciamento, não fiz mais nenhuma refeição sozinho.

Há, em casa, uma fonte variada de distrações e oportunidades para a procrastinação. Entretanto, há também a condição perfeita para que eu possa resolver um bocado de coisas que não resolvia, exatamente, por não estar em casa.

Se os noticiários me deixam ansioso e nervoso, recorro a um bom livro. Se ler não ajuda, escrevo algo.

O convívio diário familiar não é fácil. A mudança da rotina tem deixado casais, pais e filhos em ponto de guerra. Aqui em casa, não é diferente, entretanto, as oportunidades para eu validar as pessoas que amo se multiplicam e, com jeito, tudo continua dando mais ou menos certo.

Sou bem-afortunado por ter tantas coisas boas acontecendo na minha vida nessa época de sacrifícios. Nem todos tem a mesma sorte que eu tenho. Entretanto, entendo que, com algum esforço, todos conseguimos encontrar coisas boas acontecendo nesses loucos tempos difíceis.

Não sou especialista, mas tenho percebido que minha mente tem limitações quanto a quantidade de coisas que consegue lidar. Tem dias que o acúmulo de tensões geradas, felizmente, muito mais pela imprevisibilidade do que pelos fatos, não me deixa produzir. Em outros, fico tão imerso no que estou fazendo que esqueço completamente do coronavírus, das loucuras do presidente e das dificuldades inéditas.

Pessoalmente, não acredito em pensamento mágico – ou seja, não tenho esperanças de resolver os meus problemas, tampouco os problemas do mundo, com puro e simples pensamento positivo. De qualquer forma, penso que tudo fica mais fácil quando deliberadamente focamos em coisas boas.

Se meu foco estiver nas falas do presidente, na impossibilidade de viajar para fazer o trabalho que eu amo do melhor jeito, na distância e na saudade que sinto do meu filho mais velho, na falta que faz rabiscar um quadro em uma reunião presencial, nos restaurantes que deixei de frequentar, nas distrações que me impedem de produzir mais de casa, nos noticiários e mazelas das mídias sociais e nas dificuldades do convívio familiar forçado, minha realidade será difícil.

Se meu foco estiver nos milagres do cotidiano, na oportunidade de passar mais tempo com meu filho mais novo, nas conversas frequentes – mesmo que remotas – com meu filho mais velho, no poder da tecnologia para aproximar as pessoas e viabilizar negócios, na quantidade de recursos acessíveis para eu me divertir e aprender, na valorização das experiências acima das coisas, no privilégio de não comer sozinho, no tempo livre para resolver pendências de longa data, de poder ler e escrever mais e, finalmente, validar relações e afetos, minha realidade será mais doce.

Talvez, apenas ter o “foco certo” não seja suficiente para determinar a realidade de ninguém, afinal. Entretanto, acredito, de coração, que vale a pena tentar.

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