Nessa semana, em uma dessas conversas que valem a pena, surgiu uma breve discussão sobre um texto antigo de Rubem Alves, intitulado “Tênis x Frescobol”, que estabelece um paralelo de relacionamentos com jogos competitivos e cooperativos.

Depois de muito meditar sobre o assunto, conclui que os casamentos são de dois tipos: há casamentos do tipo tênis e do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de vida longa

Rubem Alves

Embora o texto, em si, trate de casamentos, parece evidente que, pelo menos em partes, pode ser generalizado para outros tipos de relacionamento.

O tênis é um jogo feroz. Seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva que indica seu objetivo sádico, que é cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar, porque o adversário foi colocado fora do jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza do outro.

Rubem Alves

De fato, o mindset competitivo, alegoricamente representado no texto como partidas de Tênis, que, no dia a dia, muitas vezes, ajuda, não cabe em cenários onde a intenção é unir forças para construir algo maior.

O frescobol se parece muito com o tênis : dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la e não há ninguém derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra, pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir…

E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos. A bola são as nossas fantasias, irrealidade, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho para lá , sonho para cá. Sonho para lá, sonho para cá…

Rubem Alves

Muitas vezes, a competitividade deve dar lugar a cooperação, como na alegoria do Frescobol. Se relacionamentos são, em essência, construídos pela repetição e pela consistência, então, o combate deve ser contra tudo que ameaça a continuidade.

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. O jogo de tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo como bolha de sabão. O que busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui , quem ganha, sempre perde.

Já no frescobol é diferente. O sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois sabe-se que, se é sonho é coisa delicada, do coração. Assim cresce o amor. Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então, que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…

Rubem Alves

Estamos tão obcecados com a ideia de ganhar, sempre, que pecamos pela simplificação de pensar que há sempre um único caminho. Em muitos cenários, esse “único caminho” torna a vitória impossível.

Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar ou perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.

Dilma Rousseff

Há, além do caminho da competição, o caminho da cooperação. Nele, quando é possível, como diria Rubem Alves, a despeito da visão de Dilma Rousseff, mesmo quando todo mundo perde, todo mundo ganha.

Este post tem um comentário

  1. Adorei o post, acho muito valioso observarmos aprendizados em áreas completamente distintas para compreender nossa posição. Afinal, não importa se escrevemos código ou poemas, no fim somos todos homo sapiens. Não conhecia este texto de Rubem Alves, obrigado pela indicação e interpretação!

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