Em tempos onde tanta gente parece saber muito sobre tanta coisa, é interessante resgatar o pensamento da polêmica professora Marilena Chaui sobre o que ela denomina “Ideologia da Competência”.

Ideologia é um instrumento de dominação. Ela é a maneira pela qual a classe dominante de uma sociedade faz com que as ideias que são próprias dela apareçam como válidas para uma sociedade inteira.

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No mundo contemporâneo surgiu uma nova forma de ideologia a que eu denomino ideologia da competência.

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Não é qualquer um, que pode dizer a qualquer outro, qualquer coisa, em qualquer lugar e em qualquer tempo. Quem fala deve estar “autorizado” a falar, quem escuta deve estar subordinado a quem está “autorizado” a falar. Além disso, quem fala determina o “onde”, “o quê” e “quando” vai ser dito.

Marilena Chaui

Trata-se de uma visão perturbadora, mas incrivelmente atual e relevante.

É inegável o valor do competência, entretanto, é muito perigoso que ele possa ser utilizada como instrumento de dominação.


Discordo profunda e frontalmente de boa parte das inclinações políticas da filósofa Marilena Chaui, sobretudo de suas preferências e inclinações político partidárias. Entretanto, sou profundo admirador da capacidade dela de entender e pensar a teoria política.

Separemos a mensagem do mensageiro. Não julguemos o valor da parte pelo todo.


O pior efeito colateral da “Ideologia da Competência” é a emergência de falsos especialistas, os dominantes, curiosamente incentivada pela comunidade dos pretensos incompetentes, os dominados.


Outro dia, quando da soltura de um famoso criminoso, vimos o surgimento de uma legião de especialistas em direito constitucionalista. Agora, em face da pandemia do novo Coronavírus, temos uma legião de “doutores” em transmissão viral.

Os programas de televisão elevaram médicos a condição de especialistas. Enquanto isso, os especialistas foram elevados a condição de semi-deuses.

A “ideologia da Competência” acaba fazendo parecer que, para ser respeitado, todo mundo deve, pelo menos, parecer competente. No lugar de algo positivo, a consequência é a proliferação de “papagaios rasos”. Gente que não agrega nada, exceto eco!


A ideia de que especialistas possuem o monopólio da decisão conduz, também, a construção da ideia de que devemos nos portar, como sociedade, de maneira una e indivisível. Essa, também, é a base do totalitarismo.


O valor dos especialistas deve ser o de colaborar, com conhecimento e insights, para o processo do pensamento livre dos indivíduos e da livre iniciativa. Qualquer coisa muito além disso, significaria atrofiamento social.

O conhecimento tem valor e precisa ser valorizado. Entretanto, é fundamental que nunca esqueçamos que “quem conhece”, quase nunca conhece tudo.


Quando ainda jogava Xadrez, era comum encontrar nos clubes os “comentaristas de tabuleiro”. Gente que sabia, de cabeça, centenas de variantes para as aberturas mais famosas. Além disso, recordavam posições de partidas jogadas pelos principais grandes mestres.

Curiosamente, quase todos os “comentaristas de tabuleiro” eram péssimos jogadores. Sabiam tudo, só não sabiam fazer bom uso do que sabiam.


Especialistas competentes tem a responsabilidade de fornecer conhecimento relevante que colabore, sobretudo, com os processos de planejamento – que sempre são, em última instância, exercícios de aprendizagem – da sociedade. Exatamente, a função da boa consultoria.

A ideia de que “conhecimento é poder” é uma fabricação ideológica. Poder é poder!


Em contextos complexos como uma pandemia, os resultados concretos das ações são raramente previsíveis. Entretanto, parecem óbvios e fáceis de explicar depois da ocorrência dos fatos.

Em contextos complexos, previsões de especialistas são sempre exercícios de futurologia!


Ouçamos aos especialistas. Entretanto, tomemos cuidado com os “ídolos” que criamos. Não atrofiemos nossa capacidade de pensar! No fim das contas, somos nós que pagaremos o preço dos caminhos que resolvermos seguir.

A ideologia da competência, elevada aos extremos, autoriza e incentiva a ditadura dos incompetentes.

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