Há tempos que percebo em mim a ocorrência de um padrão recorrente. Não acho que ele seja exclusividade minha, mas, por enquanto, permito-me ser egoísta ao ponto de me manter como única vítima para mim mesmo.

Geralmente, compenso minha falta de capacidade, para muitas coisas, com teimosia. Alguns diriam que é obstinação e empenho. Entretanto, a verdade é que teimosia talvez seja o melhor adjetivo, afinal.

Quando faço algo bem feito, por muito tempo, acumulo confiança. Cedo ou tarde, parte dessa confiança se converte em arrogância. Daí, é apenas uma questão de tempo até que eu, por descuido ou falta de foco, cometa um erro tolo. Não raro, pela mesma teimosia que compensa minha falta de capacidade, insisto no erro.

A pior e melhor coisa de cometer um erro tolo é perceber quando isso acontece. Na maioria das vezes, eu, além da vergonha, reconheço que, outra vez, fui traído pelo meu excesso de confiança que, de fato, se converteu em arrogância. Nesses instantes, tento compensar, repensar, acertar e tocar em frente. Afinal, “vida que perdoa e segue!”

É fato, cada vez mais notório, que “não tropeçamos em montanhas, mas sim em cascalhos”. De qualquer forma, o tombo pode ser grande e os machucados bem doloridos. As vezes, permanentes.

Digo e repito que “são as cicatrizes que contam a história do guerreiro”. Tenho grande orgulho das coisas boas que fiz, entretanto, são nos erros que cometi que está o maior valor que posso oferecer. De qualquer forma, o pecado da arrogância eventual resiste ao meu acúmulo de cicatrizes.

O primeiro “acidente de trânsito” em que me envolvi, por exemplo, embora não tenha ocorrido por “culpa” minha, foi facilitado, e muito, pela minha displicência. Lembro-me de, nos dias que seguiram ao o do acidente, voltar a ser um motorista mais cuidadoso e respeitoso de todas as normas e leis, até as que não fazem sentido. Entretanto, foi questão de tempo até que a placa de “PARE”, em cruzamentos pouco movimentados, voltasse a significar apenas “REDUZA”. Mais por sorte do que por juízo, não me envolvi em mais acidentes.

Fundamento tanto minhas opiniões que, muitas vezes, me torno insensível para o argumento dos outros. Frequentemente, tenho a sensação que “venci” uma discussão por teimosia e malabarismo retórico. Quando isso acontece, percebo que, mesmo tendo “vencido”, quem mais perdeu fui eu.

Gosto tanto do meu trabalho que, sem perceber, trabalho demais. Passo tempo em excesso estudando, preparando, antecipando, afiando o machado. Sempre fui assim! Por conta disso, passei muito menos tempo do que sinto que deveria acompanhando a infância do meu filho mais velho. Agora, vez ou outra, percebo que estou fazendo a mesma coisa com relação ao meu filho mais novo.

Hoje, 18 de abril de 2020, meu pai, caso estivesse vivo, completaria 68 anos. O fato é que ele e eu somos bem diferentes. Mas, ele também cometia erros demais com a certeza de que estava certo. Sinto saudades dele, mas já faz tempo que passou o dia em que percebi que já sou mais velho que meu pai. Ele sabia nadar muito bem pela vida, mas, embora tenha partido pelo câncer, se afogou “na vida” muitas vezes.

Muitas vezes, quem morre afogado é quem pensa que sabe nadar. Também é fato que só erra quem tenta. Mas, prudência combina com persistência e com consistência – todos valores bem mais acertados do que o vício da teimosia.

Hoje, como presente de aniversário ao meu pai que, infelizmente, não está mais aqui, me comprometo a manter-me o maior crítico de mim mesmo. Prometo ser honrado e ser digno de orgulho para ele. Acima de tudo, prometo vigiar meus sentimentos, pensamentos e atos para que a graça de fazer o certo não se converta, pelo menos na frequência que acontece hoje, em justificativa para erros tolos.

Não gosto do uso irresponsável e esvaziado do conceito de privilégio. Mas, de fato, sou privilegiado por tanta gente que me ama e que “ignora” meus erros tolos. Sou grato por ter tanto apoio da comunidade desenvolvedora brasileira e pela oportunidade continuada de impactar positivamente negócios no mundo inteiro. Sou privilegiado pelo fato dos meus acertos conseguirem ofuscar boa parte das minhas falhas. Mas, acima de tudo, sou privilegiado pelos puxões de orelha que recebo, vez ou outra, de gente boa que aprendi a amar e que também faz, por mim, atos de amor.

Que nossa capacidade de nadar bem nos ajude a atravessar o rio e não sirva de justificativa para, por descuido, afogarmos no caminho! Entre erros e acertos, a meta é “chegar no outro lado”.

Feliz aniversário, pai. :’-(

Este post tem um comentário

  1. Carlos Alexandre

    Elemar, todos os seus artigos e pensamentos são enriquecedores, agradeço por dispor de tempo (e da coragem) para se expor e compartilhar seus aprendizados.

    Abraço!

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