Geralmente, quanto maior é uma organização, menos relevante é a qualidade das ideias ou das iniciativas. Nelas, o fundamental para “tirar ideias do papel” é a capacidade das lideranças de “costurar” acordos. Não raro, inclusive, boas ideias são abortadas ou engavetadas, não pelo seu mérito, mas por “como” uma proposta foi feita ou, mais importante, por “quem” propôs. Ou seja, em grandes organizações não raro as competências políticas precedem as competências técnicas.

Sozinho, ninguém consegue fazer nada relevante. O jogo organizacional é sempre um jogo coletivo, jogado por times e não por indivíduos.

Qualquer iniciativa, para ter sucesso, precisa conquistar “patrocinadores executivos” fortes. Mesmo quem está no topo, não consegue “empurar”, no longo prazo, ações sem apoio. Sem o devido “patrocínio”, qualquer iniciativa, por mais bem intencionada que seja, acaba antes mesmo de começar. Não raro, decisores abortam projetos bem intencionados por saberem que o resultado proporcionado provavelmente não será suficiente para compensar as indisposições ou, ainda, concessões para conseguir andamento.

Longe do romântico mundo das séries de TV, filmes e reuniões estudantis, frases de efeito raramente funcionam. Aliás, quando algum efeito é gerado, geralmente é contrário as aspirações de quem ousou “causar”.

Em organizações públicas, a necessidade de “costurar” acordos é ainda mais importante. Para aprovar projetos é importante conseguir o apoio certo. O apoio, aliás, é conquistado geralmente em um sistema de trocas e de interesses. “Lacrar” ou “mitar” não funciona!

Sem discutir os méritos ou deméritos das últimas propostas de nosso presidente, fica evidente que faltou a ele entendimento sobre a necessidade de costurar “acordos”. Aliás, fica até mais fácil entender como conseguiu se manter deputado tantos anos sem conseguir aprovar nenhum projeto significativo no congresso.

Nem mesmo um de seus principais apoiadores, o governador de Goiás, encontrou motivos para manter o apoio ao presidente. Afinal, segundo o governador, todos os acordos “costurados” pela manhã de ontem foram ignorados no pronunciamento realizado a noite.

Para nossa infelicidade, nosso presidente ignorou inclusive a necessidade de “costurar” acordos com sua própria equipe. Em declaração pública, hoje pela manhã, ressaltou que ainda se reuniria com o Ministro da Saúde (indicado pelo governador de Goiás) para determinar a aplicação do lockdown vertical. Para piorar, no início da noite de hoje, seu próprio vice-presidente, um general, se atreveu a contrariar seu superior sobre qual seria o posicionamento do governo, algo bem incomum para alguém com disciplina militar.

Bolsonaro tentou “imitar” Donald Trump. Infelizmente, ignorou que Trump conseguiu “costurar” acordos para injetar 2 trilhões de dólares (mais de 10 trilhões de reais) na economia. Além disso, o estadista americano (quem diria?!) parece entender bem a linguagem de seu povo com ações coordenadas com slogans poderosos como “Make America Great Again!”, “America First” ou “Our country wasn’t built to shut down!”. Por aqui, a popularidade presidencial despenca, por lá, Trump conta com mais de 67% de apoio.

Políticos precisam fazer política. No mundo dos negócios, quem “não combina o jogo”, joga sozinho. No mundo político, quem joga sozinho “cai rápido” e costuma alegar que a causa foi um “golpe”. Na verdade, a causa real é pura incompetência.

Que nosso presidente recobre a consciência que “mitar” não é receita para governar o país. Todos dependemos disso nesses tempos de crise. Como ele disse, as famílias precisam ter condições de se manter e as empresas não podem “quebrar”. Honestamente, não duvido que falte boas intenções nas iniciativas do presidente.  Entretanto, de boas intenções…

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