Não seja um Kamikaze

O comportamento que descrevo nesse post é extremamente nocivo a carreira de todo técnico. Geralmente resulta em desgaste desnecessário e raramente promove algo positivo.

Sempre disse que “são as cicatrizes que contam a história do guerreiro”. Por mais que meus acertos na vida tenham colaborado para trazer onde estou, certamente são meus erros que agregam mais valor ao trabalho que faço hoje. Algumas das minhas cicactrizes mais profundas são resultado do que estou chamando aqui de “comportamento kamikaze”.

Sendo um Kamikaze

Desenvolvedores (pessoal da área técnica em geral) costumam ser muito perspicazes. Geralmente, temos talento para perceber problemas em processos, ou em algumas decisões de negócio muito rápido. Erramos um bocado, mas, na maioria das vezes, temos alguma razão.

O problema que nossa habilidade para detectar problemas é inversamente proporcional a nossa habilidade para comunicar nossas descobertas para qualquer pessoa que não seja da área técnica… daí, o desgaste!

Sintoma #0 – Questionando uma decisão já tomada

Quase sempre, quando estamos em reunião com pessoal da área de negócios ou com um superior hierarquico, estamos apenas sendo informados de uma decisão já tomada. Muitas vezes, isso não é deixado claro. Há vezes, inclusive, onde aparentemente ainda há espaço para discussão… mas, … a decisão geralmente já está tomada.

Como dizia Dale Carnegie (e um dos meus clientes mais queridos), precisamos aprender a cooperar com o inevitável.

Não estou defendendo, de forma alguma, que deixemos passar SEMPRE decisões simplesmente porque elas já foram tomadas – mas, as vezes, essa é a melhor estratégia, principalmente, quandoq uem tem o poder para decidir já tomou partido. Na minha experiência, a melhor abordagem é acatar a decisão e levantar as “preocupações” que você tem como pedidos de orientação sobre como proceder quando alguns “possíveis problemas” acontecerem.

Bater de frente, principalmente com quem tem mais poder que você, é uma atitude perigosa. Mais cedo ou mais tarde a conta vem e ela não costuma ser barata. No mínimo, você passará a ser reconhecido como “chorão” ou “teimoso” – essa fama não vai te ajudar em uma próxima reunião. Acredite!

Sintoma #1 – Apontando erros dos outros

A melhor ideia é sempre adotar postura colaborativa. Questionar sobre potenciais dificuldades, de forma educada e cooperativa, é sempre melhor do que, simplesmente, dizer que o trabalho das outras pessoas está errado. Esse é um erro que ainda cometo com muita frequência!

Por mais que as pessoas neguem, elas sempre ficam desconfortáveis quando alguém expõe seus erros ou enganos. Recentemente, realizei um diagnóstico no processo de desenvolvimento de um cliente. Ao apresentar meu relatório, não poupei esforços para ser explícito sobre minhas recomendações de melhoria – entretanto, analisando agora, tenho quase convicção que fui “explícito demais” em alguns momentos. Resultado? Acabei na “geladeira”. Pior, soube que muito do que apontei foi ignorado e os mesmos “problemas” ainda estão acontecendo. Cliente com problemas? Sem dúvidas! Mas o maior culpado sou eu. Poderia ter feito muito mais impacto se tivesse sido mais ponderado e construtivo.

Uma atitude construtiva é sempre uma melhor abordagem.

Sintoma #2 – Questionando autoridade de um par

Todos conhecemos pessoas que, por alguma razão, estão ocupando uma posição (ou sendo nomeadas para uma posição) sem méritos suficientes para isso, segundo nosso ponto de vista superior (ironia!).

Aqui há dois problemas: 1) Podemos estar errados! Acredite, acontece; e 2) Ao questionar a posição de alguém na empresa também estamos quesitonando a posição de quem as nomeou para aquela posição – isso, meus amigos, pode ser fatal (pelo menos para carreira naquela empresa).

Talvez, a melhor atitude seja seguir a recomendação daquela música … “Apesar de você, amanhã há de ser … outro dia!”. Ou seja, fazer o melhor possível para jogar limpo (não estou falando para ser inocente, apenas justo) e fazer o melhor trabalho. Como dizia uma antiga colega de trabalho, “você não precisa gostar do seu colega, apenas precisa conseguir trabalhar com ele”… O segredo é RESPEITO.

Sintoma #3 – Queimar as pontes, fazer birra e ir embora

Nesse contexto, “queimar a ponte” é eliminar qualquer condição de contornar um caminho difícil. É bater de frente com alguém de tal forma a tornar a relação muito difícil de recuperar. Essa, salvo momentos de conflito de valores, é uma péssima ideia. Você nunca sabe o dia de amanhã e, principalmente, não sabe se, com a chegada da maturidade, não tomaria um posicionamento diferente. Decisões irreversíveis podem ser interessantes, mas elas podem custar muito caro – esteja certo de que está realmente preparado para assumir as consequências.

Fazer birra, pedir demissão (recolher seus brinquedos e ir embora), também é decisão infantil. Saiba que “a grama do vizinho sempre parece mais verde”, mas, “olhando de perto, ninguém é normal”. Logo, calma, respire, planeje seus atos e não seja destrutivo.

Não estou dizendo que você precisa ficar em um lugar onde não se sente bem. Mas, pense se o problema é realmente o lugar, ou .. sua atitude.

Recomendações

Planeje seus atos! Não estou dizendo que sua “paixão” não pode ser exposta de forma expressiva. Mas, em conversas difícieis, comportamento passional geralmente será algo pior para você. Cuidado com o “apoio” dos seus colegas – quando o “bicho pegar”, muitos deles podem simplesmente sumir (ou, o que é ainda pior, podem ajudar a forma a base que contesta sua posição).

Uma boa estratégia costuma ser “postergar a decisão”. Peça um tempo para avaliar a situação, quando você puder. Não seja impulsivo.

Seja inteligente. Aprenda a expressar suas opiniões de forma agradável e não violenta. Seja duro, mas não perca a ternura. Você não precisa se sacrificar para defender suas ideias. Afinal, se você não estiver presente, quem irá te representar?

Uma última sugestão? Leia “Conversas Difíceis“.

4 Comentários
  1. Pedro Paulo

    Show de bola Elemar. Curti demais esse post. Dicas preciosíssimas

  2. Rafael Romão

    Excelente texto. Eu acrescentaria duas recomendações: 1 – Em situações assim, ao longo do tempo, dê o máximo de sugestões e ideias que puder e acostume-se com a ideia de que a maioria será ignorada ou rejeitada, mas algumas não serão e isso lhe fará muito bem. 2 – Se estiver difícil seguir essas dicas, procure ajuda psicológica e/ou psiquiátrica. As vezes chegamos em um ponto em que nosso cérebro já se moldou a ser reativo e sem ajuda é muito difícil reverter a situação.

  3. Regivaldo Fraga do Nascimento

    P A R A B É N S!

    Já acompanho o seu Blog há um certo tempo mas nunca tinha comentado nenhum post (mesmo tendo gostado bastante), mas não deu pra ficar calado neste.

    Excelente trabalho e obrigado por compartilhar suas experiências.

    Abraços
    Regivaldo Fraga

  4. Fernando Debrie

    Post muito bom. Essa sabedoria vem com o tempo, com a experiência e são dicas úteis.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *